Partidos políticos negam estar se aproveitando das manifestações

Em um ritmo cada vez menos previsível, centenas de brasileiros tomaram as ruas nos últimos dias para manifestações que tiveram como marco inicial o aumento das tarifas de ônibus em São Paulo. O estopim, na verdade, tornou-se apenas a faísca que faltava para transbordar sentimentos distintos e, por vezes, disformes. Ainda assim, no meio das mobilizações, partidos políticos encontram espaço para discordar sobre a participação de representantes com bandeiras das legendas em punho.

A discussão foi levantada a partir de uma nota de apoio à mobilização que aconteceu nessa terça-feira (18/6), em Camaçari, remetida por um vereador do DEM. Citado por apropriação indevida da mobilização, o próprio diretório municipal apressou-se em desmentir a situação. Porém, o caso abriu brecha para o debate se existe alguma legenda apta a se apresentar como organizadora das manifestações nas principais cidades brasileiras e que começam a encontrar eco em municípios como Paulo Afonso, Valença e Jequié.

Para o deputado estadual Paulo Azi, presidente estadual do DEM, a declaração sobre Camaçari “não se trata de apropriação, mas de apoio à manifestação”. “A mobilização é resultado do aumento da insatisfação da população sobre assuntos diversos, como o aumento do custo de vida, a precariedade dos serviços públicos prestados”, avalia Azi. Na opinião dele, é natural o comportamento dos filiados ao DEM de participarem das manifestações, apesar de ponderar que os movimentos “deixam a classe política numa situação desconfortável”. “Os questionamentos presentes no movimento são feitos há muito tempo pela oposição. É hora dos governos reavaliarem suas prioridades”, critica o democrata, que ainda alfineta: “O PT e o PCdoB que sempre se utilizaram dos movimentos para atingir seus objetivos”.

No mesmo tom, o presidente do PT na Bahia, Jonas Paulo, rebate o comentário de Azi. “O DEM é originário da Arena, do PDS e do PFL, que nutriram a ditadura e trataram movimentos sociais como caso de polícia. Não combina a participação deles”, argumenta Paulo. Segundo ele, as manifestações consolidam a democracia brasileira, que vive um momento de maturidade. “Defendemos o livre direito de manifestação. O país está mudando, sim. Está distribuindo renda, gerando mais empregos, ofertando mais vagas nas universidades. Mas há gargalos como a reforma política”, avalia o petista, ao sugerir que as manifestações são “próprias da democracia”.

PT e PCdoB defendem

Acusados por adversários de apropriarem-se de mobilizações sociais, PT e PCdoB concordam que, mesmo que por enquanto haja um posicionamento apartidário, em algum momento será necessária a participação de entidades políticas organizadas. “Os partidos são essenciais para a democracia, principalmente partidos como o PT, com ligação com movimentos sociais”, aponta Jonas Paulo, presidente petista. “Temos que fazer um debate franco e aberto, sem preconceitos. Vivemos numa plena democracia. Agora há direitos conquistados durante os governos de Lula [Luiz Inácio Lula da Silva] e Dilma [Rousseff] que são sagrados, como cotas, distribuição de renda e proteção social”, divagou.

O dirigente do PCdoB na Bahia, deputado federal Daniel Almeida, coaduna com as ideias de Jonas Paulo. “Não conheço nenhuma manifestação no mundo que tenha tido consequências efetivas sem a participação de movimentos políticos como os partidos”, indica o comunista. Na opinião dele, entretanto, as atuais mobilizações não podem ser relacionadas a quaisquer partidos políticos do Brasil.

Já Geddel Vieira Lima, presidente estadual do PMDB, adota um posicionamento diferente. Para ele, “não cabe a participação de partidos políticos nesse tipo de manifestação”. “Acho que é uma forma da população se manifestar. Há um desencanto com os partidos políticos, não há como negar. Mas esse é um movimento espontâneo, e assim deve permanecer”.

Cientista político discorda da espontaneidade

Apesar dos discursos de líderes partidários sugerirem que as manifestações que acontecem em todo o Brasil – inclusive em Salvador e em cidades do interior do estado – são espontâneas, o cientista político Paulo Fábio Dantas discorda com veemência dessa análise. De acordo com o professor, “as pessoas que estão convocando as manifestações são lideranças, mesmo que não sejam lideranças tradicionais, como as que estamos acostumados a ver”. O discurso, segundo ele, foi observado na cobertura jornalística das mais diversas mobilizações e que mostra uma tentativa de reconfiguração da interação entre a sociedade e o sistema político.

“Senti que a cobertura tende a apresentar como uma virtude uma posição ‘apolítica’. A ausência de liderança para mim é um problema, mesmo acreditando que este não é o caso. É fundamental, na ausência de uma pauta focada, que haja uma canalização política”, avalia Dantas. “É interessante que as manifestações não são partidárias. É ruim a apropriação. O próprio uso da expressão apropriação já sugere algo indevido. Não se pode remar contra a maré. Se os partidos acreditam que podem se apropriar do movimento, estão enganados. Eles não têm chance de disputar influência com esses movimentos”. Ele, todavia, discorda do posicionamento que rechaça o envolvimento de militantes de partidos nas mobilizações.

“É da própria natureza dos partidos participarem. Agora, é preciso dialogar com as novas representações da sociedade civil. Quando as democracias se estabilizam, os partidos têm perdido sua dimensão civil e têm se prendido à preocupação sistêmica”, completa o cientista político. Uma das preocupações apontadas por Dantas refere-se às reclamações de integrantes das mobilizações, que rechaçam completamente a participação de representantes de partidos nas manifestações. “Não existe democracia sem partido. Sem partido, ela é abocanhada por outros sistemas. Os partidos são necessários para a competição política”, indica o professor.

Pesquisador na área de comunicação e política, Wilson Gomes tem utilizado o perfil dele em redes sociais – onde acontecem as mobilizações – para avaliar o movimento. Gomes cita, entre outras coisas, a ausência de uma pauta única como fator de motivação. “Manifestações nesta escala de participação são sempre montadas por aglutinação de agendas, slogans, motivações e causas. 10, 20 mil, numa cidade grande, você mobiliza com uma agenda específica e um escopo bem desenhado; 100 mil só se houver suficiente polissemia para que as pessoas entendam que a sua causa também está representada”, analisou o professor em um post nessa terça-feira (18/6) no Facebook.

*Publicada originalmente na Tribuna da Bahia de 19 de junho de 2013

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