O tal de João de Santo Cristo é o novo Macunaíma

A distância entre o bem e o mal é completamente subvertida por o tal de João de Santo Cristo. É tênue essa fronteira que o personagem vivido por Fabrício Boliveira rompe ao emprestar seu rosto ao anti-herói cantado por Renato Russo na década de 1980 nas telas de todo o país a partir desta sexta (31) em Faroeste Caboclo (2013). A adaptação da música que Russo transformou num épico de uma geração chega ao cinema recorrendo a clichês como o amor e seu poder de redenção com os erros, mas mostrando a verve de um inspirado René Sampaio, que estreia na condução de um longa-metragem.

Com influências de obras do novo cinema nacional, como Cidade de Deus  (2002), são com referências aos clássicos Macunaíma, de Mário de Andrade, e Dom Casmurro, de Machado de Assis, que Faroeste Cabloco brinda o espectador com uma trama envolvente e, ao mesmo tempo, reflexiva. João de Santo Cristo consegue, logo nos primeiros minutos de filme, conquistar a plateia com sua vilania repleta de bondade – a empatia dele com o público deve-se as ações dele como consequências da história de vida do anti-herói. Assim como no livro de Mário de Andrade, ele é o retrato do brasileiro que batalha e muito para alcançar seu objetivo: conquistar a mulher amada, Maria Lúcia.

É na personagem de Ísis Valverde que se revela um retrato da Capitu machadiana. Usando do amor como instrumento de perdão para quem é realmente o João de Santo Cristo, ela é oblíqua e dissimulada a ponto de agir contra os próprios sentimentos para salvador o amado. Não que em Machado de Assis existam provas de que houve traição, mas, em Faroeste Cabloco, é a mulher enquanto reagente e personagem principal da própria história – e dissimulada.

A principal referência à Cidade de Deus é também fruto da influência dos western movies americanos, em que o jogo de câmaras é importantíssimo para a construção da cena no imaginário do espectador. Nesse ponto, o diretor age com maestria e, com parcos excessos, faz com que a plateia mergulhe dentro do set de filmagem – nos primeiros momentos do filme, a primeira passagem de tempo é um exemplo límpido como a água que o balde não vai encontrar no fundo do poço.

Interpretações belas de Fabrício Boliveira, Ísis Valverde e Antonio Calloni são pontos fortes do filme. Infelizmente, Felipe Abib, que vive o antagonista Jeremias, não consegue dar o mesmo tom. O adversário de João de Santo Cristo é caricato e não consegue acompanhar seu companheiros de set – ainda que haja momentos em que ele consegue efetivamente mostrar o Jeremias esperado.

Faroeste Caboclo não é apenas uma transposição da música homônima para as telas de cinema. É uma adaptação das mais bem feitas de uma linguagem para outra. Vale o ingresso!

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