A responsabilidade do jornalismo

Mais cedo, enquanto aguardava o computador carregar alguns arquivos do Corel Draw, um tweet de @costa_filipe chamou a atenção dos desavisados que não acompanham diariamente todos os telejornais brasileiros – infelizmente o horário que se chega em casa após o trabalho impede que todos sejam assistidos ao vivo e, reprisado, perde a graça. O repórter do jornal A Tarde e estudante da Faculdade de Comunicação – Facom – comentou sobre um jornalista da RBS TV, afiliada da Rede Globo no Sul do Brasil, que, ao vivo, teceu comentários preconceituosos sobre a responsabilidade de motoristas ao trafegarem em vias públicas, como a BR-101. Evitando juízos de valores pessoais, segue o vídeo na íntegra:

Além do assunto ser por deveras polêmico, o nome do jornalista chamou minha atenção, pois, dois dias atrás, postei uma notícia no site que presto assessoria contendo Luiz Carlos Prates como um dos palestrantes em um evento para jovens catarinenses no final de semana. Automaticamente fiz a associação entre o trecho “voltava para Florianópolis pela BR-101” e o Congresso Estadual da Ordem DeMolay de Santa Catarina e, prontamente, informei ao presidente do Supremo Conselho – instituição que me contrata – sobre a situação vivida pelo jornalista Luiz Carlos Prates. Pareceria um momento de gestão de crise, mas muito provavelmente ninguém faria associação entre o palestrante e o polêmico jornalista – a não ser aqueles que lerem esse post (torçam para que o contrato não seja findado).

O que me chamou a atenção não foi necessariamente uma pessoa palestrar sobre auto-estima e competências profissionais para cerca de 400 jovens com idades entre 13 e 20 anos e, logo em sequência, cometer um deslize preconceituoso e carregado de fundamentações ideológicas num tradicional telejornal do Sul do Brasil. Isso muito pouco tempo depois da sociedade brasileira refletir sobre o conceito de “nordestino” lançado no Twitter e no Facebook pela estudante de direito paulista Mayara Peluso. Longe desse pobre foca comparar dois episódios tão distantes em seus prelúdios, mas ambos comprovam que a teoria de que o povo brasileiro não é preconceituoso não é apenas falha, como extremamente utópica.

“Popularização do automóvel, resultado deste Governo espúrio que popularizou pelo crédito fácil um carro para quem nunca tinha lido um livro”, finalizou Prates no comentário exibido no dia 15 de novembro e que resultou numa suíte pelo Jornal da Record edição do dia 17. O poder que um comentário preconceituoso rendeu a estudante paulista no twitter, não teve a mesma repercussão que a do jornalista, mas provocam a mesma sensação de descrença com a propagação irresponsável de opiniões. Em um tweet no início da semana, o apresentador do Jornal Nacional da Rede Globo, William Bonner, sugeriu que um grande mal que deveria acometer toda a humanidade seria o da vergolha-alheia. A mesma teoria é compartilhada pela professora Malu Fontes, que ainda não vi comentar sobre o caso Prates e concordo plenamente com ambos.

O caso do comentarista da RBS deveria se tornar emblemático sobre o poder e a responsabilidade que nós, jornalistas, temos para com o público que nos lê, ouve ou assiste. Por mais que seja impossível evitar que as histórias de vida e as experiências pessoais interfiram no trabalho – o mito da imparcialdade caiu há muito tempo -, é primordial que os comunicadores, em especial aqueles que trabalham com notícias, tenham ciência de que as opiniões emitidas num suporte/ veículo de grande repercussão podem acirrar ânimos e situações sociais que, aparentemente, todos conseguem fingir que não existem. Não se trata de hipocrisia apenas, mas a certeza de que a mentira é, além de um conceito socialmente necessário, algo essencial para a construção de relações sociais. Em resumo, é melhor calar do que proferir qualquer comentário que seja preconceituoso ou, simplesmente, não condizente com a expectativa daqueles que os assistem – se é que não corresponde. Traduzindo em miúdos, é necessário lembrar que a vergonha alheia é um bem (mal) necessário.

Cabe lembrar ainda que, por mais qualificado que um profissional aparente ser, ele está sujeito a deslizes – fato que abona os organizadores do evento em Santa Catarina de qualquer responsabilidade pela postura radical adotada pelo jornalista. A partir do erro – antes até, se possível -, é preciso cobrar uma postura mais ética e adequada com as convenções invisíveis que operam na sociedade – seja para jornalistas quanto para qualquer outra classe ou organização social.

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Comments
2 Responses to “A responsabilidade do jornalismo”
  1. Daza Moreira disse:

    Fernando, parece que os blogs tem sido nosso destino enquanto récem-formados-desempregados. Também criei um, menos sério do que o seu. Visite-me! http://dazamoreira.blogspot.com/
    Beijo_me_siga

  2. Wellington Oliveira disse:

    Daqui a pouco vou criar o meu também e aí ficamos trocando figurinhas… Bem que podia ter sido engenheiro. Mas não sei calcular.

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