Parcialidade sim, isonomia também

 A reestreia de “o foca”- sob novo formato – acontece em meio a um grande debate sobre o funcionamento e o papel da mídia, qualquer que seja o suporte por ela utilizado.  Afinal, se imparcialidade é um mito no jornalismo, a isenção e a isonomia para entrevistar fontes possui limites?

Há algum tempo, o jornalista Paulo Henrique Amorim, tarimbado por passagens em diversas redes de TV e pela manutenção de um blog opinativo, cunhou o termo PIG, Partido da Imprensa Golpista, para agrupar grupos de mídia que concentram boa parte da imprensa brasileira – leia-se Abril, Globo, Folha e Estadão. A expressão, popularizada deste então, principalmente por integrantes do que se costumava chamar de “esquerda”*, voltou a fazer parte do cotidiano das discussões na web após o lançamento do livro “A Privataria Tucana”, do também jornalista Amary Ribeiro Jr., em que aparecem documentos relativos ao período de privatizações da era de Fernando Henrique Cardoso (1995-2001). No bojo do debate sobre quem defende que interesse, a Carta Capital saiu na frente: deu o pontapé para que a publicação se tornasse um best seller apenas com as vendas de dezembro. Foi aí que começaram a ser tangíveis as linhas invisíveis que separam o papel da imprensa na apresentação dos fatos do papel da imprensa em interpretar os fatos para o leitor: o PIG não falou sobre o livro.

Desde o momento em que a candidatura de Dilma Rousseff começou a ser construída pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva – “goela à baixo” dentro do próprio Partido dos Trabalhadores (PT) – a imprensa em geral começou a mostrar que não daria trégua ao grupo político que domina a cena brasileira.  Independente de assumir uma postura partidária ou não, o papel de fiscalizador, próximo ao tão falado quarto poder no caso dos EUA, parecia estar levantando a poeira da estrutura acomodada dos grandes grupos, tradicionalmente ligados à “direita”*. Foi nesse ponto que esses grupos perderam a mão. Após seis meses de governo, o jornalismo investigativo, que parecia um rascunho de projeto de longo prazo, deu lugar ao denuncismo que resultou na queda de seis ministros em menos de um ano por supostos envolvimentos em casos de corrupção.

Foram cerca de seis meses apanhando até que a imprensa de “esquerda” resolveu reagir. Trouxe à tona um ponto frágil da administração da “direita” – leia-se PSDB – e muito assustador para os brasileiros: as privatizações. No contexto de ataques e contra-ataques ideológicos, quem perdeu foi o jornalismo.

Quem entra e sai de uma faculdade de jornalismo ou que acompanha a imprensa por mais de um dia sabe que a imparcialidade é um mito. E não adianta viver acreditando que ela seja possível porque não é. Qualquer pessoa, seja ela jornalista ou não, instruída ou não, possui suas bases de formação e delas dependem na interpretação do mundo e na forma de contar o que cada um vê. Por isso, se houve uma formação mais ligada ao republicanismo, há uma tendência geral de “direita”. Caso tenha havido uma formação ligada ao bem-estar coletivo e aos interesses de nação, geralmente percebe-se a inclinação à “esquerda”. Será assim sempre. Não há o que mudar. A dificuldade da imprensa, entretanto, não é admitir que a imparcialidade não existe. Qualquer um dos lados – atacantes ou contra-atacantes – sabe que há de se escolher um lado. Até aí tudo bem. O maior problema é que, por essa imparcialidade inexistente, “direita” e “esquerda” justificam a falta de isenção ao apresentar fatos. Antes restrita às colunas e artigos, a interpretação desses fatos é o que chega ao conhecimento do receptor. E, sem total perspicácia para entender essa falsa imparcialidade, o que se vê são espectadores sendo conduzidos para acreditar em A ou B, quando, na verdade, eles tinham que refletir sobre o deveres de A e de B.

Enquanto a “direita” é quase sempre relacionada às elites econômicas, a “esquerda” agora é dominada pela nova classe média. Porém a imprensa de ambos os lados possuem como limitação estrutural a falta de isonomia no tratamento dos fatos. Na teoria, fazer jornalismo é ouvir mais de um lado de uma história – dois, três ou quantos forem possíveis – e produzir um conteúdo que permita ao leitor refletir sobre o fato apresentado. O que deveria ser regra, no caso do jornalismo político parece ter se tornado uma exceção.

“Mas nós ouvimos todos os lados”, justificam a maioria das publicações. Pena que eles não ganham o mesmo espaço para explicar como e porquê seus nomes estão envolvidos nos tais escândalos. Não que as fontes tenham direito de justificar o que parece injustificável – a depender da parcialidade do jornalista ou da empresa. Apenas o público, o leitor, o receptor ou seja qualquer o nome que queira dar, precisa ser lembrado que não existe apenas uma verdade. E que essas verdades dependem da observação por diversos prismas. É um direito deles. E deveria ser o dever do jornalismo. Pena que há um “desaprendizado” geral do fazer jornalismo.

*Esquerda e direita estão dentro de aspas por apresentarem contextos diversos a depender da formação ideológica do leitor. Essa é a formação de “o foca”.

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Comments
3 Responses to “Parcialidade sim, isonomia também”
  1. edgard disse:

    O “pig” também silenciou sobre o livro “o chefe”, de ivo patarra, sobre lula e o mensalão, e “a verdade sufocada”, do cel. Brilhante Ustra, sobre tortura na ditadura. Repercussão mínima também para o “dicionário lula”, de ali kamel e “o que eu sei de lula”, de josé nêumanne pinto.

  2. Mas o pig não silencia apenas contra o PSDB? É o que evoca muita gente…

  3. Ernesto Correia disse:

    É interessante ver esse tipo de abordagem. Cai por terra mitos como esse, tipo a nossa Carta “Magna”. Interessante ressaltar um documentário exibido pelo SescTV sobre o período militar, altamente informativo! E o posicionamento da impressa que Hora está na situação e após o inicio da censura muda de lado.

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