“Cadê o sabonete?”

Essa história será para lembrar as pequenas crônicas de 2007, quando aconteceu a primeira aventura nos Estados Unidos, quando ainda não falava nada de inglês e tinha a companhia de Arthur Martins, que falava menos ainda do idioma.

Ainda em março, na derradeira semana antes de embarcar para os EUA, as perguntas sobre o que colocar ou não na mala preenchiam a mente. “Será que se colocar a creme de barbear vou ficar preso na imigração? E shampoo é permitido?”. Depois de ler e reler as regras do transporte de líquidos em viagens internacionais, descobri que as dúvidas só cresceram. Ao invés de um guia facilitado, a Embraer faz um FAQ que ajuda muito pouco – ou nada. Como a restrição era apenas para líquidos, lembro perfeitamente do que pensei. “Vou levar um sabonete, pois isso eles não podem barrar. Chegando lá, descubro como comprar”. Ledo engano. E a culpa é da falta de vocabulário.

Ao chegar em casa e me “apossar” do quarto e do banheiro, não precisei me preocupar com sabonete. Tinha um disponível no banheiro, apenas aguardando minha chegada. Então pensei, “não vou me preocupar com isso agora, vou usar esse e, quando terminar, uso o que trouxe do Brasil”. No mesmo mês da chegada, entretanto, fui a Boise, capital de Idaho, por duas oportunidades e fiquei hospedado em hotel. Como todo mundo sabe, hotéis possuem sabonete no banheiro e, a cada dia, eles renovam os sabonetes. Pensei diferente do restante de todas as outras oportunidades na vida. Estava à frente do espelho, ainda embaçado por conta do chuveiro quente quando fiz a reflexão. “É um costume muito pobre pegar o sabonete de hotel. A qualidade não é essas Coca-Cola todas e acredito que as pessoas não fazem isso por aqui. Vou dar uma de boçal. Vou deixar o sabonete aqui, como uma prova de que estou sendo extremamente civilizado”. E o tempo passou. Não trouxe sabonete em nenhuma das duas oportunidades que tive. Então voltei pra vidinha comum…

Terminado o sabonete que estava no banheiro, saquei o Palmolive Naturals de Cupuaçu que tinha trazido do Brasil. Era o cheiro de casa, já que ele acumula duas características básicas para um estudante universitário: é bom e é barato. Pena que trouxe apenas um…

Quando o Palmolive estava prestes a acabar, resolvi me arriscar sozinho num supermercado. Pior escolha não teria feito. Se pelo menos tivesse olhado no dicionário – ou Google Translate – como achar sabonete em inglês, talvez tenha sido mais fácil. Foi na verdade um pesadelo. “Será que os supermercados nos EUA tem a mesma organização normal de um supermercado brasileiro? Será que eles são do contra como os acrianos?” (no Acre a organização dos supermercados não segue o mesmo padrão do restante do Brasil). “Acho que não vou ter trabalho para achar um mísero sabonete”. Coitado…

Dentro da grossery store, entrei pela porta perto da área de alimentação, normalmente do lado esquerdo de quem entra no supermercado. “Ufa. A organização é a mesma do Brasil. Não vou ter trabalho para achar”. E começou a saga por entre as seções, até atingir a área de beleza. “É aqui. No mesmo lugar que tem shampoo e condicionador, deve ter sabonete”. Porém, essa era a única seção que tinha um funcionário arrumando o material. E ele fez a fatídica – e assustadora – pergunta quando não se sabe o que procurar. “Can I help you?”, perguntou o solidário arrumador. Foram alguns perturbadores segundos pensando em como responder. Se explicava o que queria através da mímica universal ou se simplesmente dizia “Estou apenas olhando”. A vergonha fez optar pela segunda. E continuei rodando pelo supermercado. Evitei ao máximo a seção com o funcionário pela vergonha de olhar mais uma vez para ele. Foram alguns intermináveis minutos. Papel higiênico. Absorvente feminino. Shampoo. Condicionador. Perfume. Remédios. Loção pós-banho. Tudo disponível. Menos sabonete. Frustrado pensei “vou ter que perguntar ao vendedor”. Mas o problema foi pior que a solução. Como perguntar se não se sabe o que perguntar? A cena de alguém simulando um banho no meio do supermercado não é uma cena que gostaria de ver. Então pensei, é o jeito é desistir. A ação inteira durou cerca de 20 minutos. O único sabonete que achei era para banho de cães. Não pegava bem tomar banho com um desses…

E voltei pra casa. Enquanto não descobria que sabonete era bath soap ou apenas soap, o jeito foi banho de shampoo. O problema era não lembrar a palavra. Afinal, quem mandou trazer sabonete do Brasil e tentar tirar onda sozinho com as amostras de hotel. Se você não usa uma palavra, provavelmente ela não aparece no seu vocabulário até fazer parte do seu cotidiano…

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Comments
5 Responses to ““Cadê o sabonete?””
  1. Leandro Paim disse:

    Pensei que no final tivesse desistido de tomar banho!
    auhauhauahuahaua

  2. Henrique Azevêdo disse:

    E afinal de contas, você comprou o sabonete depois, ou continuou os banhos com shampoo? rsrsrs

  3. Arthur Martins disse:

    Fernando, quase que tive uma cólica de tanto rir!!! E como me lembrei de 2007… Olha se não tivesse quebradinho com a casa e essa bendita iniciação, iria pro CI só para relembrar os velhos tempos. Um grande abraço.

  4. Paulo Massuda disse:

    agente aqui se mata de rir.. mas o pior é acontece né pelo menos você sabe responder alguma coisa eu só saiba falar yes.. kkkkkkk..

    abraços

  5. Hugo Leonardo disse:

    Hauhauhau! Na verdade fiquei imaginando você parecendo um macaco lavando a cabeca pra simular um banho pro vendedor!

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