Nas ondas dos bondes

Finalmente é possível afirmar que os principais agentes do trabalho de conclusão de curso – TCC – Jovens da periferia de Salvador: os bondes saltaram de seres invisíveis que fazem parte dos cenários dos shoppings center da capital baiana para ocupar um lugar de destaque no noticiário local. Inclusive, da maneira mais previsível que poderia imaginar após ter estudado o fenômeno social que envolve garotos e garotas entre 14 e 24 anos que se coordenam em agrupamentos conhecidos como bondes. Na noite do último domingo, 05 de setembro, por volta das 20h, o jovem de 15 anos, Luiz Henrique Sacramento, caiu ao tentar escorregar pelo corrimão da escada de vidro de um dos maiores centros comerciais da Bahia, o Salvador Shopping. A brincadeira que custou a morte de Luiz Henrique faz parte das ações praticadas pelos integrantes dos bondes no local e também no shopping Iguatemi, ambos na mesma região da capital.

Uma das principais surpresas ao acompanhar as notícias sobre o assunto é observar que o nome do estabelecimento comercial foi citado por todos os veículos de imprensa escrita do dia seguinte (Massa!, A Tarde e Correio*, os dois últimos praticamente reproduzindo o conteúdo disponibilizado na web). Diferente das outras notícias encontradas durante a pesquisa para o TCC, o nome do Salvador Shopping não foi substituído por sinônimos como centro comercial ou centro de compras – talvez pelas notícias eximirem o estabelecimento de culpa pela fatalidade, com direito ao atendimento de uma UTI Móvel mantida dentro do local. A estratégia não foi observada em outros momentos, quando clientes passaram a se sentirem ameaçados com a presença dos integrantes dos novos modelos de agrupamento juvenis urbanos – e que foram observados ao longo do desenvolvimento do trabalho, entre os meses de junho de 2009 e 2010.

Apesar de citarem a morte do jovem, nenhum dos veículos, inclusive dois blogs disponíveis na internet, o Consulado Social (incluindo um vídeo de celular) e o RMS Notícias, comentaram que Luiz Henrique pertencia a esse fenômeno social autodenominado bonde. A afirmação pode ser feita, entretanto, a partir de comentários de amigos do garoto na notícia postada pelo Correio*, em que claramente aparecem terminologias compartilhadas pelos integrantes dos bondes. Conhecendo um pouco o padrão de comportamento dos garotos que compõem os agrupamentos facilita a ligação entre o corpo caído e o objeto de estudo do TCC.

Talvez um dos parágrafos finais do trabalho seja elucidativo para entender a lógica de funcionamento desses agrupamentos:

Os bondes funcionam como uma tribo urbana, citando o termo utilizado por Maffesoli (2006). Dividem experiências e compartilham medos, numa tentativa de serem reconhecidos enquanto um agrupamento social, com signos de reconhecimento específicos e com poder de obter a visibilidade dentro de uma norma social pré-estabelecida e que impede que os integrantes dos bondes sejam notados ou observados enquanto um fenômeno social questionador dos ditames da sociedade. Os bondes seriam uma vitrine da maneira como os jovens gostariam de ser reconhecidos.

Outra afirmação contida no trabalho justifica os comentários presentes na própria notícia do Correio* e na publicada no A Tarde, ambas ainda na noite de domingo:

O desenvolvimento desse trabalho permitiu afirmar que os bondes funcionam também como substitutos das figuras parentais, que impelidos pelas exigências do mercado de trabalho e do contexto sócio-econômico são obrigados a permanecer cada vez menos tempo com os filhos. O termo família, utilizado como alternativa para bonde, possibilidade a inferência de que esses jovens buscam relacionamentos semelhantes aos que deveriam ser vivenciados no núcleo familiar tradicional, com pais, mães e irmãos. Parte dos integrantes dos agrupamentos, inclusive, utilizam os bondes como válvula de escape para dividir experiências que não seriam facilmente compartilhadas com os pais, como, por exemplo, a dúvida da garota de 14 anos sobre a gravidez, relatada no capítulo três.

Tais avaliações, mesmo que superficiais diante da análise realizada para a construção da monografia, apresentada em 30 de junho de 2010, permite afirmar que a tragédia da morte do garoto está sendo anunciada há muitos meses pelo fenômeno dos bondes que, de alguma forma, tentam subverter o sistema de regras e contratos sociais a que estão subordinados ao viver na periferia de um grande centro urbano, sem tantas oportunidades de lazer ou de manifestações identitárias, dividindo espaço inclusive com o tráfico de drogas e outras situações propiciadas pela vulnerabilidade econômica a que estão submetidos.

Os centros comerciais não são isentos de culpa, porém, por se tratar de um fenômeno ainda pouco estudado, é complicado mensurar a responsabilidade deles. Os garotos e garotas dos bondes aproveitam o espaço público-privado para, de alguma forma, encontrar um local de encontro e manifestação cultural – mesmo que sejam apropriações de outros fenômenos, como o próprio nome, com origem no funk carioca. E é possível que outras tragédias voltem a acontecer se surfar nas ondas dos bondes continue sendo uma das poucas alternativas para esses jovens entre 14 e 24 anos que curtem stronda e se vestem diferente.

Para saber mais sobre os bondes dentro do Trabalho de Conclusão de Curso de Comunicação Social – Habilitação Jornalismo, visite o resultado final no slideshare.

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