O recomeço do que não acabou

Foram 107 dias incríveis. A experiência de participar de um programa de intercâmbio deveria fazer parte da vida acadêmica de qualquer estudante. Conhecer outras culturas, pessoas bem diferentes daquelas que compõem o pequeno círculo de convivência do dia-a-dia também deveria ser obrigatório para qualquer pessoa que se diga interessada em conhecer um pouco mais sobre o ser social que o homem é. Um misto de saudade e muita coisa para arrumar impediu que o foca atualizasse o blog no último mês. Não que eu tenha faltado com respeito aos leitores. Apenas não conseguia conviver muito bem com a ideia de que o sonho estava acabando. Que aqueles 107 dias passaram rápido e, ao mesmo tempo, devagar. Rápido para o retorno ao Brasil, para o convívio da família e dos amigos. Devagar pela grande quantidade de boas memórias e lembranças que ficarão eternizadas a cada vez que sejam relembradas.

Grupo de brasileiros que visitou Moscow entre 12 e 15 de junho

Agitação no Corner Clube contou com a presença de um brasileiro que mal falava português

Os últimos dias na pequena Moscow foram agitados para os padrões de lá. Entre os dias 12 e 15 de junho éramos 13 brasileiros, perambulando pela University of Idaho, pelas ruas e pelo Corner Club. A agitação era tamanha que, ao ver um bando de doidos, dançando freneticamente ao som de Exaltassamba e Ivete Sangalo, um dos clientes do bar ligou para um amigo: “Você não vai acreditar, mas tem quase 15 brasileiros aqui no Corner”. Pouco depois, chegava um brasileiro que morava há seis anos nos EUA e tinha dificuldades em pronunciar algumas palavras em português. “Cara, eu juro que não imaginaria encontrar brasileiros num bar de Moscow em plena segunda-feira”, repetia Chev – ou Luis – para todos os que tinha oportunidade de conversar. Até o barmen ficara impressionado com a agitação que um pequeno grupo de pessoas era capaz de fazer. O Corner foi diferente naquele dia. Moscow parecia diferente naquele dia. Era o que costumam chamar de alegria brasileira. E era contagiante…

Mas foi por pouco tempo. A quase moribunda Grand Rapids esperava aquele grupo para participar do Congresso Internacional da Ordem DeMolay. Aos 13, juntaram-se outros três. Era a maior delegação brasileira naquele Congresso nos últimos anos. Dessa vez, muito mais discretos do que o usual, o protagonismo não fora de nenhum tupiniquim. Talvez apenas um chapéu, que roubou a cena ao se tornar a urna na eleição de dirigentes da instituição. E, com um blusão corinthiano, outros brasileiros se encontraram. Um bar de karaokê foi o palco para piadas envolvendo são-paulinos, corinthianos, gaúchos – enfim, todo e qualquer brasileiro que ali chegasse. Até um “Bora, Baêa” chegou a ser ensaiado.

As costelinhas eram sucesso não apenas em Grand Rapids

O momento cômico do bar era assistir a um bando de brasileiros – ligeiramente pouco sóbrios – agitando com música country, rock e tudo o que mais tivesse ritmo que permitisse risadas. A reportagem da Newsweek estava errada. Grand Rapids não era tão moribunda quanto foi escrito. Pessoas extremamente educadas, atenciosas e bastante solícitas mostravam que a cidadezinha ao lado dos lagos de Michigan tinha muito a oferecer. “Obrigado por ajudar nossa economia”, agradeciam todas as vendedoras. E esse discurso não estava restrito à Michigan. Até Washington D.C. era possível ouvir a mesma fala.

Duarte não é Silva – Se por vezes é possível ouvir brasileiros reclamando do sistema aeroportuário, as companhias brasileiras dão de 10 a 0 nas americanas Delta e United, duas das maiores empresas do setor americano. A depender da classe tarifária, o cliente não tem direito à bagagem – que deve ser paga separadamente no momento do check-in. E, a depender do humor da atendente, eles podem te embarcar erroneamente. Depois de ter despachado as malas, Fernando Duarte tornou-se Rodrigo Silva e com direito à informação de que o sistema nunca falha. A atendente na casa dos 40 anos simplesmente confundiu os nomes impressos nos passaportes e emitiu duas vezes o bilhete de Rodrigo Silva, alegando que Silva e Duarte eram últimos nomes bem parecidos. Isso para falar pouco sobre o que é embarcar em voos internos em território americano. Agradecer por TAM, Gol, Avianca, Azul ou Webjet é, por incrível que pareça, uma alternativa viável e plausível depois de tantos problemas nos embarques internos dentro dos EUA.

O Memorial Lincoln realmente tem que ser visto à noite

A chegada na capital americana foi surpreendentemente negativa. Os carregadores de bagagem do hotel tentaram extorquir cada um dos brasileiros que chegaram ao hotel. “Quando se chega em grupo, para guardar bagagem vocês devem pagar US$ 2 por peça”, relatou um deles. Depois de alguns protestos, o guardador mais idoso mudou a conversa: “cobramos US$ 3 por pessoa”. Era o que tinha a ser feito. O Capitólio e outros marcos da democracia americana estavam à espera daqueles mesmo 13 que visitaram Moscow. Para turismo cívico e histórico, Washington DC é uma das melhores escolhas disponíveis no mundo – apesar de não conhecer tantas outras opções. Diferente de Brasília, com seu ar Niemayer moderno, o clássico convive perfeitamente bem com a arquitetura do século XX na capital americana. Talvez, com o passar do tempo, a capital brasileira adquira os requintes que Washington já apresenta. Por enquanto, na opinião daquele grupo de brasileiros, Washington merecia lucrar mais com o turismo do que Brasília. “Há mais o que se ver por aqui”, comentou um deles. Talvez por conta do complexo de museus que fica cercado pelo Capitólio, Monumento à Washington, Casa Branca e Memorial de Lincoln.

Para New York City, um dos momentos mais agradáveis do passeio, a viagem de trem entre a capital americana e a capital do mundo. Foram três horas extremamente confortáveis, sem a loucura de pesagem de mala ou estresse de operadoras de companhia aéreas. A paisagem era, quase sempre, um espetáculo a se admirar. Pena que o prazer tenha durado pouco, já que a ida entre o Penn Station e o hotel, na cara da Brodway, foi uma batalha por um táxi. “Eles não param quando vêm malas. Querem ganhar dinheiro, mas não querem ter trabalho de carregar nada”, resmungava um dos brasileiros sobre os clássicos carros amarelos nova-iorquinos. A reclamação durou pouco, já que a Times Square deixa qualquer um boquiaberto.

As luzes de Times Square são mágicas e deixam todos perplexos por alguns minutos. Essa foi a primeira visão desse grupo de brasileiros

Luzes e mais luzes – Se a ida para Washington vale a pena, conhecer New York City é, sem dúvidas, uma das coisas para se fazer antes de morrer. O show de luzes nos letreiros de Times Square só pode ser comparado à qualidade dos espetáculos da Brodway, não mais distante do que uma quadra. Um dos momentos marcantes para qualquer um é fotografar-se num dos grandes letreiros, em que uma câmera brinca com o povo que passa. Só que New York é também um destino para outro tipo de turismo: o das compras.

Foram pouco mais de seis horas num outlet. “Eu passaria mais umas dez”, brincou um dos brasileiros. Já na volta, em pleno JFK Airport, uma outra brasileira comentava: “eu passei apenas 11 horas, mas se dependesse, eu voltaria outro dia”. Os preços não eram tão mais baixos se comparados com algumas lojas americanas que não seriam consideradas outlets. Porém eram muito mais baixos do que os preços disponíveis no Brasil. Tanto que o idioma que mais se ouvia nos corredores de Woodbury não era o inglês. Era um português com sotaques paulistas, pernambucanos, baianos, gaúchos, mato-grossenses, paraenses, etc. Quer conhecer um brasileiro em New York? Vá à Woodbury. Sempre haverá mais de 10.

Pena que a maioria dos brasileiros não pode ir ao Central Park ou ao Museu de História Natural. Retornaram no dia 23, enquanto a volta do foca estava marcada para o dia 26. Esses dois pontos turísticos da cidade mais cosmopolita do mundo são incríveis. História, cinema, vida. Tudo isso e um pouco mais podia ser observado nas galerias do museu ou até mesmo nos caminhos do parque que delimita a selva de pedra da selva natural. E vida era o que faltava para os bonecos de Madame Tussauds. Havia sempre a esperança que uma das estátuas de cera se tornasse viva e falasse – ou resmungasse – diante da quantidade de flash diante delas.

E enfim, o retorno ao Brasil. O focasemzoo deve entrar numa nova fase agora. A série 107 dias despede-se com a sensação de que ainda ficou muita coisa inexplorada na terra de tio Sam. Caso haja algum retorno, as aventuras voltarão a ser contadas. Obrigado a todos que acompanharam à saga de um brasileiro nos EUA.

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Comments
3 Responses to “O recomeço do que não acabou”
  1. Ernesto Gomes disse:

    Bem., não é como está in loco…
    mas já dá uma percepção ufano-não-brasileira sobre
    os usos e costumes dos americanos do norte, rs;
    Agora é arrumar um emprego pro rapaz!…escreve bem, tem um tom quase ironico de filme infantil-com-linguagem-cômica-adulta e alem do mais é gente da melhor qualidade. rs
    Não poderia deixar passar Wel-Come-Fernando
    kkkkkkkkkkkkkkkk, essa é podre, mas enfim..o que seria do mundo sem as tiradas não induzidas.

  2. Blogo do amigo Fernando Duarte sobre nossa viagem aos EUA. Sensacional!!!

  3. Eduardo disse:

    Que história maravilhosa! Para quem lê e princpalmente para quem, como eu, viveu esses momentos junto ao Fernando, ou melhor, ao foca! Valeu amigo!

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