O silêncio incômodo

Assistir a filmes baseados em fatos reais não é uma surpresa no cinema e, ultimamente, tem se tornado rotina na retomada brasileira da sétima arte, vide Chico Xavier e Meu nome não é Johnny, por exemplo. No cinema americano não há muita diferença, com grandes nomes da música ou dos esportes transformados em ícones nas grandes telas como Ray e Ali. Histórias de superação, perseverança, encontros e desencontros, problemas com a lei ou simplesmente exemplos de vida. Ver o mundo real nas telas é impressionante. Porém, se torna ainda mais real quando se vê o que o cinema tentou reproduzir. É essa a sensação que Leigh Anne Tuohy e Michael Oher causam quando estão presentes num lugar. Eles mostram que The Blind Side é uma obra prima não como filme, mas como uma história de vida.

Com seus 1,55 m, a loira interpretada no cinema por Sandra Bullock era minúscula ao lado do filho adotivo, Michael Oher, com seus 142 kg. Contratados como guest speakers pela convenção Farmers Insurance Championship 2011 – San Francisco, ambos aguardavam nos bastidores enquanto os 250 melhores vendedores de seguros entre os mais de 14 mil agentes da Farmers Insurance Group ouviam atentamente aos comentários de casos de sucesso de relacionamento com o público de cinco donos de agência. Provavelmente faça parte da rotina dos Tuohy participar desse tipo de evento, então eles não parecem incomodados com o atraso. Quem ficaria incomodado pouco tempo depois, entretanto, era a plateia que aumentou momentos antes do apresentador/ entrevistador convidar Leigh Anne e Michael para o palco, após um pequeno resumo da vida de ambos ser apresentado nos telões. Pobre do vice-presidente, não tinha a mínima noção de como entrevistar alguém que não seja para um oportunidade de emprego.

Michael Oher era um gigante se comparado aos demais participantes da conversa

Como Sandra Bullock mostrou muito bem no filme que sua personagem era capaz de fazer, Leigh Anne facilmente roubou a cena na manhã de quarta-feira 25 de maio. E com a maestria de uma madame que facilmente poderia ser vista na Oscar Freire ou até mesmo nas áreas de grife dos shoppings de Salvador. Perguntada se gostou da interpretação de Bullock, ela foi enfática. “O que vocês acham? Se vocês estão me vendo agora e sou desse jeito, ela me interpretou bem?”, desafiou os espectadores. Sandra Bullock foi perfeita. Como a jovem senhora comentou, ela passou alguns dias convivendo com os Tuohy, aprendendo os trejeitos de Leigh Anne e copiando o sotaque sulista – comentário que resultou em sonoras gargalhadas do público. Formado pelos melhores vendedores da terceira companhia de seguros norte-americana, o público continha apenas agentes que venderam, no mínimo, 1 milhão de dólares em apólices. Alguns ultrapassaram a barreira de 5 milhões. O salário mensal de cada um deles ultrapassaria facilmente tudo o que um trabalhador brasileiro que recebe um salário mínimo por mês ganha durante a vida inteira. Eram a nata de uma sociedade que começa a superar uma crise financeira e que começa a reviver os momentos áureos dos Estados Unidos. Um público em que Leigh Anne parecia estar acostumada a conviver, por fazerem parte de um mesmo estrato social. Talvez por isso ela estivesse tão à vontade para surpreendê-los.

“Mike era apenas um garoto que precisava de uma oportunidade. O que nós fizemos não foi nada mais do que dar uma oportunidade para ele. E ele mostrou que era capaz”, indicou Leigh Anne. Michael continuava calado boa parte do tempo e, quando falava, sua voz era muito mais gutural que qualquer outra naquele salão. “Os Tuohy acreditaram em mim. Apenas isso”, concordou o gigante Oher. Foi nesse momento que um silêncio constrangedor tomou conta do salão. “Quantos de vocês aqui passam por uma pessoa na rua e enxergam nela mais do que a cor da pele, a opção sexual ou a condição econômica? Quantos de vocês teriam a coragem para fazer o que nós fizemos? Não estou sugerindo que vocês adotem um garoto negro de mais de seis pés [1,93 m]. Apenas estou questionando o porquê cada de um vocês não consegue olhar para uma pessoa ao seu lado e enxergar que ela tem potencial, faltando apenas uma oportunidade. Será que não existem outros Michael Oher no mundo?”, disparou a metralhadora de palavras Leigh Anne Tuohy. E o silêncio foi a única coisa palpável no salão. A ausência de som, murmúrios ou qualquer tipo de emissão sonora era tão densa que apenas palmas quebraram o constrangimento. Leigh Anne Tuohy é, sem sombra de dúvidas, uma mulher incrível…

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Comments
One Response to “O silêncio incômodo”
  1. Stenio disse:

    Este filme é belíssimo! tem outro também em que eu me identifico muito: 127 horas!

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