O Egito não é ali – ou Democracia é para poucos

Depois de quase dois meses de férias, esse foca sem zoo resolveu tentar nadar nas áreas turbulentas do jornalismo mais uma vez.

Imagens: Siro Pimentel (www.riounafm.blogpost.com)Fonte: www.riounafm.blogpost.com

A tarde de ontem (24/02) foi atípica para a cidade de Valença (e não Valência, como divulgado por alguns veículos de comunicação), distante de 120 km da capital baiana. A população foi surpreendida com um levante popular bem diferente dos padrões brasileiros de “revolta” do povo contra as autoridades constituídas. Próximo às 16h, um grupo de familiares do jovem Marildo Teles Nascimento, 25 anos, vítima de latrocínio, buscava apoio da Secretaria Municipal de Saúde para a liberação do corpo pelo Instituto Médico Legal – IML. Segundo relato da mãe do garoto, em entrevista a uma rádio local, o objetivo era evitar que outras famílias passassem pela mesma situação de esperar pelo laudo técnico do médico legista para sepultar os seus – que no caso de Nascimento a espera entrava no segundo dia. O protesto, em frente à Câmara Municipal, uma das principais avenidas da cidade, com fins pacíficos, transformou-se em baderna com a mesma velocidade que outras 13 pessoas foram vítimas de homicídio no município de 88 mil habitantes em menos de dois meses.

Apenas o blog da Rio Una FM, emissora de rádio local, mantinha informações atualizadas sobre o assunto e as imagens, feitas por um jornalista amador, estarreciam e assustavam valencianos e o público que acompanhou o noticiário nacional e local, que reproduziram fotos e vídeos. “Isso aqui está um caos. Tentaram invadir a loja de motos da família do prefeito, mas a polícia chegou na hora. Chegaram a retirar duas motocicletas, mas a Polícia Militar impediu que fossem levadas pelos manifestantes”, relatou o funcionário público Jodelse Duarte, por telefone. Além da revendedora de motos, a maior loja de eletrodomésticos da região e central da rede de 47 de propriedade da família do Prefeito Ramiro Campelo foi alvo de saques e foi apedrejada, da mesma maneira que a Câmara de Vereadores e carros de edis.

A justificativa, usada pelos agitadores, era que a Prefeitura Municipal, representada na figura do Prefeito, seria responsável pela inoperância do IML, que contava com apenas dois médicos legistas e atrasaria a liberação de corpos de vítimas de mortes violentas. Segundo dados apurados pelo Bahia Meio-Dia – telejornal da Rede Bahia -, que foi ao ar no dia seguinte, o Departamento de Polícia Técnica informou que estão alocados quatro profissionais para a IML de Valença, porém um acabara de ser transferido, um gozava de férias e um terceiro estava afastado por problemas de saúde. A nota indicava ainda que médicos da região estariam dando o suporte necessário para a liberação mais rápido de corpos.

Há nessa situação duas grandes reflexões a serem feitas. A primeira delas é sobre a responsabilidade particular do prefeito sobre uma ação que depende, única e exclusivamente, do governo do Estado: a nomeação de médicos legistas, ligados à Secretaria Estadual de Segurança Pública. Apesar de ser responsabilizado por deslizes administrativos, o prefeito não poderia ter bens depredados, nem tampouco qualquer outra pessoa – seja ela moradora da cidade ou não. A partir do momento que a manifestação transformou-se em tumulto, a população perdeu totalmente a razão. É certo que a figura de um policial militar da reserva com uma arma ameaçando os manifestantes não colaborou para acalmar a situação, que, nesse momento, fugiu do controle do contingente de policiais que atendem à cidade. O movimento, iniciado no cais, subiu em direção ao centro comercial e resultou em ações de vândalos em casas comerciais, com algumas dezenas de pessoas filmando e fotografando com celulares em punho.

Fonte: www.riounafm.blogspot.com

Outra reflexão, que deverá ser mais profunda e seria tema de outro artigo, é que a manifestação contra a violência coincide com a divulgação do Mapa da Violência 2010, publicação do Ministério da Justiça em parceria com o Instituto Sangari, que traça os perfis e os índices de mortes violentas entre 1998 e 2008. Os números da Bahia são alarmantes numa análise bem superficial. Houve um aumento de 280% de mortes violentas de jovens como Nascimento, grande parte vítima de homicídios relacionados ao tráfico de drogas.

Mas a revolta de Valença pode ser considerada um caso isolado? A discussão, alimentada em redes sociais como Facebook e Orkut e nos comentários no blog da rádio local, mostram que a população aprova, com pequenas restrições, a ação de populares em manifestações contra a atuação de instâncias constituídas como governos municipal, estadual e até mesmo federal. Caso semelhante foi vivenciado na cidade de Santo Antônio do Descoberto (GO), no mês de janeiro. Mas a ação de vândalos deve ser coibida e reprimida, pois desmerece o propósito de questionar/ repudiar as atividades de governantes. Indiretamente, pode se aludir os manifestantes às revoltas populares vividas em países como o Egito e a Líbia, porém é supervalorizar demais a população de uma cidadezinha do interior da Bahia. Mas há uma grande diferença entre lá e cá. O capitalismo nosso de cada dia protege os bens e o indivíduo. Isso é fruto da democracia já consolidada no Brasil. Não custa lembrar que, para nós, a ditadura acabou há mais de 20 anos…

Veja a notícia veiculada no Jornal Hoje (Rede Globo).

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Comments
5 Responses to “O Egito não é ali – ou Democracia é para poucos”
  1. Diego disse:

    Fernandinho, muito boa a matéia cara. Minha dica eu já te disse: escrever com mais regularidade.
    Gostei foi do depoimento do funcionario público por telefone…

  2. Caio disse:

    Bom, um dos motivos dessa revolta foi o fato do DPT não ter médicos e pela demora da liberação dos corpos no IML, mais o principal motivo é a onda de violência que está nessa cidade de Valença, Ninguem mais sai de casa às 19h, pois logo é assaltado e pode até perder a vida, pois os bandidos estão muito bem armados. O que nos revoltou foi este cínico do Prefeito Ramiro dizer que não tem nada haver com isso. Como um responsável pela cidade não tem nada haver com o aumento dessa bandidagem? E ainda disse que não poderia fazer nada pq o cara ja foi morto mesmo! Por esse motivo a população se rebelou e perdeu a razão, mais foi por esse motivo que começaram o quebra-quebra nas lojas do prefeito. A população dizia: “Ele nao tem nada haver com isso, então vamos ver agora, ele sentindo na pele se ele fará alguma coisa.”….. os vándalos, assaltantes tomaram conta da situação…. e ficamos com medo, houve muitos tiros da polícia e o povo nem se quer os respeitaram por está em menor número. Valença está atrasada, parou no tempo, esse vagabundo do ramiro teve suas contas reprovadas pelo TCE e mesmo assim recebeu 40 milhões para a pavimentação do Bairro da Bolívia….. e cadê? Ele tem que sair……

  3. Pelegrini disse:

    Como disse o Diego, excelente matéria! Gostei do texto pela imparcialidade, que da minha parte não teria. Mas você foi profundo narrando cada detalhe com riqueza de informação. A realidade foi essa mesmo, a população está insegura, todos estão com medo porque os bandidos não estão matando só os comparsas (no caso dos usuários de droga), agora partiram para os homens de bem.

    Aqui em minha sorveteria fui assaltado 5 vezes, a sensação é a pior possível, pois todas as vezes você acha que vai morrer naquele dia porque os bandidos são frios e fazem um terrorismo na hora de levar seus bens. A vontade que você sente é de ter uma arma na hora e tentar derrubar todos, pois todos eles dão as costas depois que assaltam (dão as costas porque teem certeza que você não tem uma arma para ameaça-los). Fica só o gosto de fazer.

    Temos grades na porta da nossa sorveteria. É constrangedor para nós quando chega um cliente e você atende sem que ele tenha o direito de entrar, imagina para eles!?

    A maior culpa é do governo estadual, esse nem mesmo se manifesta, nunca vi o governador falar sobre questões de segurança. A violência tomando conta da Bahia, agências bancárias das cidades de interior são assaltadas quase que todos os dias, pessoas sendo assassinadas, veículos sendo roubados, pessoas humildes da zona rural (onde ainda se tinham tranquilidade) sendo escorraçados por bandidos. Não se tem respeito por mais ninguém.

    O prefeito foi o bode expiatório do governo, alguém tinha que ser a vítima e como ele foi cabo eleitoral do governo, sobrou.

  4. Rafael disse:

    Boa escrita! Sempre quis ter um filho assim! Não sabia que Valença estava nesse estado. Do ponto visto crítico construtivo, acho que você poderia ter abordado os impactos econômicos da violência à localidade tão dependente do turismo e situado a Comuna como ponto de partida para Morro (que é conhecido nacionalmente).
    “Edis”? Faz uma enquete de quantas pessoas conhecem essa palavra?(rs)
    Parabéns!

  5. rafaela disse:

    a violencia acabara quando todos os homens conhecer o amo de Deus e guarda no seu coração. Rafaela Monteiro 12 anos

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